HOMILIA DA PROFISSÃO DO FR. JOÃO REGO

 

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O Fr. João Rego fez a sua Profissão Religiosa Solene no passado dia 20 de Fevereiro, na comunidade dos carmelitas da Foz do Douro, Porto. Aqui partilhamos a homilia que o P. Provincial, fr. Pedro Lourenço Ferreira proferiu nesta celebração.


Caríssimo Frei João Rego
Reverendos Padres, familiares, amigos e irmãos em Cristo e na Senhora do Carmo.
Esta celebração da consagração religiosa coloca-nos na presença do Senhor que está no meio de nós. E nós somos essa presença sacramental. A Igreja que nós somos é o corpo de Cristo enviado pelo Pai e gerado no seio puríssimo da Virgem Santa Maria. Somos o mistério que celebramos. A celebração dá visibilidade ao mistério que a fé e os sinais realizam e declaram, mas que permanece oculto aos nossos olhos.
De facto, há pouco, quando o Frei João Rego foi chamado pelo seu nome, ele respondeu: « Aqui estou, Senhor, Tu me chamaste ». Mas nós reconhecemos a voz de quem o chamava. E uma outra voz acrescentou: « Irmão, que pedes ao Senhor e à sua Igreja santa? ». Esse Senhor é o que chama, é a Palavra do Senhor, o Verbo encarnado, o Espírto Santo que procede do Pai e do Filho. Esse Senhor é o Deus da oração cristã, mas aquele pedido orante era apresentado também à Igreja santa desse Senhor. E que pediste tu, Irmão João? Três coisas que dizem a tua vida, hoje apresentada para ser consagrada, à maneira do pão e do vinho da comunhão: Pediste: «A perseverança até à morte, ao serviço do Senhor, nesta família carmelita». A totalidade do teu ser está disponível para a perseverança sem reservas ao serviço do único que é Senhor, nesta família carmelita, e eu acrescento «descalça», como somos os irmãos que hoje te recebemos, dando graças a Deus. A tua pessoa, a pessoa de Jesus e as nossas pessoas encontram-se disponíveis para a comunhão de vida. E a pessoa de Jesus é o centro dessa comunhão: a tua perseverança nesta família carmelita é dom de Deus concedido à maneira de recompensa temporal aos seus trabalhadores. O serviço ao Senhor é a forma e a graça própria da perseverança. A família carmelita é o lugar desse serviço ao Senhor. Graças a Deus que é o Autor de toda a vocação e missão na vida da Igreja.
As leituras descreveram o mistério da vocação e da missão. Toda a vocação encerra e se destina a uma missão. Isaías deu o seu testemunho, como o Frei João o pederia dar hoje e por isso escolheu aquela leitura (Is 49, 1-6): «O Senhor chamou-me desde o ventre materno, disse o meu nome desde o seio de minha mãe. Ele disse-me então: «Não basta que sejas meu servo, para restaurares as tribos de Jacob e reconduzires os sobreviventes de Israel. Farei de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra». O Senhor que chama é o mesmo que envia e vai, e a pessoa que é chamada é a mesma que é enviada em missão. A missão é o Senhor e o seu mensageiro, como o «Deus connosco» é o homem de Deus. Desde o momento da Encarnação até ao fim dos tempos, Deus mora no humano e todo o humano é sagrado, como nos ensina S. João na segunda leitura (1 Jo 4, 7-16): « Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus; e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. ... Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. ... Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e em nós o seu amor é perfeito. Nisto conhecemos que estamos n’Ele e Ele em nós: porque nos deu o seu Espírito. ... Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele».
O amor é tudo na vida cristã, seja ela matrimonial ou religiosa. O amor é o sinal definitivo do reino de Deus. Num tempo em que o provisório e o efémero fazem parte da cultura dos mercados de consumo, o cristianismo afirma valores imutáveis e eternos: a amor de Deus pela humanidade e a paixão por Cristo e pela mesma humanidade. Esta paixão por Cristo podemos encontrá-la em todos os estados de vida, em todas as profissões humanas, idades e culturas. Estatísticamente estas paixões cristãs florescem na proporção das adversidades dos lugares e dos tempos. A crise de vocações para a vida religiosa e até para o matrimónio cristão tem aqui a sua breve explicação. Mas os tempos são de mudanças contínuas, rápidas e profundas. O evangelho continua a ser proclamado, hoje como no tempo histórico de Jesus, a multidão continua a aglomerar-se em volta de Jesus para ouvir a palavra de Deus, conforme escutámos na leitura (Lc 5, 1-11). Os pescadores estavam entregues ao desânimo devido a uma noite de trabalho inútil. O Mestre subiu para o barco de Simão e pôs-Se a ensinar a multidão. « Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Respondeu- Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que quase se afundavam. Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. ... Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus».
Frei João Rego, aquele trabalho que realizaste por um tempo como profissional não encheu as redes do teu coração e o barco da tua vida ficou disponível para o Mestre que a requisitou. Ele entrou no barco da tua vida e fez as maravilhas que os teus olhos viram, dando-te em pleno dia o que habitualmente se encontra de noite. Na escola do Carmelo encontraste o que procuraste na Escola Profissional. Daqui em diante serás professor doutras músicas: as melodias celestes executadas por instrumentos que Deus toca para enamorar o coração dos homens e os mover à tal paixão por Cristo e pela humanidade. Paixão por Cristo que morreu por nós e paixão pela humanidade carente do amor que Deus derramou no teu coração. Do muito que recebeste dá com generosidade.
Continuamos a oração da tua consagração. E uma vez consagrado, considera a oração como a fonte e o objectivo da tua consagração religiosa e carmelita descalça. Esta assembleia é o sinal da Igreja que te consagra e te desposa para tomares parte na sua santidade de vida e na sua missão no mundo. Pela consagração religiosa tu deixas de ser teu para seres da Igreja nas pessoas dos irmãos que hoje aqui se fazem representar na sacramentalidade desta celebração. Doravante, a tua castidade, a tua pobreza e a tua obediência dizem-nos respeito: são nossas e queremo-las dedicar ao serviço da Igreja a quem o Senehor Jesus consagrou a sua vida. Junta-te a nós, conta connosco e unidos será mais fácil a subida ao monte Carmelo por este caminho de perfeição que Santa Teresa de Jesus e S. João da Cruz nos deixaram como herança, cujo património não devemos esbanjar mas enriquecer ainda mais, a exemplo de tantos dos nossos ilustres irmãos e irmãs carmelitas. Ser carmelitas descalço é um privilégio na Igreja. Bendita mãe que tais filhos gera.
Senhora do Carmo, Stella maris, sede-nos propícia e intercedei por nós para que sejamos dignos de alcançar as promessas de Cristo. Amen.

 

 
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