450 ANOS DA REFORMA TERESIANA

 

Image

Excertos da narração da fundação do Convento de S. José, em Ávila, por Santa Teresa de Jesus no Livro da Vida.

«Tendo eu um dia comungado, Sua Majestade mandou-me instante¬mente que o procurasse realizar com todas as minhas forças, fazendo-me grandes promessas de que o mosteiro não se deixaria de fazer, e nele se serviria muito a Deus, e que lhe pusesse o nome de S. José: ele nos guarda¬ria a uma das portas e Nossa Senhora à outra e Cristo andaria connosco. Que esta casa seria uma estrela que irradiaria de si grande resplendor e, embora as Religiões estivessem relaxadas, não pensasse eu que Ele era pouco servido nelas. Que seria do mundo se não fossem os religiosos? Que dissesse ao meu confessor que Ele me pedia isto e a ele lhe rogava não fosse contra, nem mo estorvasse. 32,11

Tornou meu confessor a dar-me licença para eu me pôr a isso, tanto quanto pudesse. Eu bem via o trabalho em que me metia, por estar muito só e ter pouquíssimas possibilidades. Assentámos em que se tratasse de tudo com todo o segredo, e assim procurei que uma irmã minha que vivia fora daqui, comprasse e arranjasse a casa como se fosse para si, com dinhei¬ros que o Senhor deu, por diversas vias, para a comprar. Seria longo contar como o Senhor foi provendo a tudo. Andava eu com grande cuidado de não fazer coisa alguma contra a obediência; mas bem sabia que, se o dissesse a meus prelados, estava tudo perdido, como da vez passada, e ainda seria pior.
Em conseguir o dinheiro, em procurar as coisas, em consertá-las e fazê-las aviar, passei grandes trabalhos e alguns bem a sós. A minha com¬panheira fazia o que podia, mas podia bem pouco e tão pouco que era quase nada, a não ser o fazer-se tudo em seu nome e com seu favor. Todo o mais trabalho era meu e de tantas maneiras, que agora me espanto como o pude aguentar. Algumas vezes, aflita, dizia: “Senhor meu, como mandais coisas que parecem impossíveis? Embora fora mulher, se tivesse liber¬dade!... Mas atada por tantos lados, sem dinheiro nem ter donde vir, nem para o Breve, nem para nada, que posso eu fazer, Senhor?”.
Uma vez, estando numa necessidade, sem mesmo saber que fazer de mim nem com que pagar aos oficiais, apareceu-me S. José, meu verdadeiro pai e senhor, e deu-me a entender que os ajustasse, pois não me faltaria, e assim o fiz sem ter um real e o Senhor me proveu de tudo, por modos que espantavam os que o souberam.
Fazia-se-me a casa muito pequena, e era-o tanto, que não parecia levar caminho de ir a ser mosteiro. Queria, pois, comprar outra, a qual estava junto dela, também muito pequena, para fazer a igreja. Mas nem tinha com quê, nem havia modo de se poder comprar, nem sabia que fazer. Acabando um dia de comungar, disse-me o Senhor: já te disse que entres como puderes. E a modo de exclamação, acrescentou: Oh! cobiça do género humano, que até terra pensas que te há-de faltar! Quantas vezes dormi Eu ao relento por não ter onde me recolher!
Eu fiquei muito espantada e vi que o Senhor tinha razão. Vou à casita, tracei-a e achei-a embora bem pequeno, um mosteiro perfeito. Não curei de comprar mais espaço, senão procurei que nela se dispusesse tudo de maneira que se pudesse viver; tudo tosco e sem arte, tão semente para que não fosse nocivo à saúde, e assim se há-de fazer sempre. 33, 11-12

Importou tanto o não tardar eu nem mais um dia para o que tocava ao negócio desta bendita casa, que não sei como se poderia concluir se eu então me demorasse. Oh! grandeza de Deus! Muitas vezes me espanto, quando considero e vejo quão particularmente queria Sua Majestade aju¬dar-me para que se efectuasse este cantinho de Deus, pois creio que o é, e morada onde Sua Majestade se deleita, como uma vez, estando eu em oração, me disse que, esta casa era para Ele paraíso de deleite. E assim parece Sua Majestade ter escolhido as almas que trouxe para aqui, em cuja companhia vivo com tanta, tanta confusão. Nem eu as soubera desejar tais para esta vida de tanta austeridade, pobreza e oração. E levam-na com uma alegria e contento tal, que cada uma se acha indigna de ter merecido vir para este lugar. Em especial, há algumas que o Senhor chamou de entre muita vaidade e galas do mundo, onde poderiam estar contentes conforme as suas leis, e tem-lhes dado o Senhor aqui tão dobrados gozos, que elas claramente reconhecem ter-lhes dado cem por um do que deixaram e não se fartam de dar graças a Sua Majestade. A outras, tem Ele mudado de bem para melhor. Às de pouca idade dá fortaleza e conhecimento para que não possam desejar outra coisa e entendam que, ainda mesmo cá em baixo, é viver em maior descanso o estarem apartadas de todas as coisas da vida. Às que são de mais idade e com pouca saúde, dá forças, e lhas tem dado, para poderem levar a aspereza e penitência como as outras.
Oh! Senhor meu, como mostrais que sois poderoso! Não é mister buscar razões para o que Vós quereis, porque, por sobre toda a razão natu¬ral, fazeis as coisas tão possíveis que dais bem a entender que mais não é meu, façais tudo fácil. Aqui bem se pode dizer: «fingis trabalho em vossa lei», porque eu não o vejo, Senhor, nem sei como «é estreito o caminho que a Vós leva». Caminho real, vejo que é, e não senda; caminho onde, quem nele entre de verdade, vai mais seguro. Muito longe estão os recifes e despenhadeiros para cair, porque estão longe das oca¬siões. Senda ruim e caminho apertado chamo eu o que, dum lado tem um vale muito profundo onde se pode cair, e do outro um despenhadeiro. Ainda mal se descuidam, os que por aí seguem, quando se despenham e fazem em pedaços. 35, 1

O que Vos ama de verdade, Bem meu, vai seguro por caminho largo e real. Longe está o despenhadeiro; mal vai o tropeçar e já Vós, Senhor, lhe dais a mão. Não basta uma queda, nem muitas, para se perder, se Vos tem amor e não às coisas do mundo, pois vai pelo vale da humildade. Não posso entender o que é que temem de se meterem no caminho da perfeição.
O Senhor nos dê a compreender, por Quem é, como é má a segurança em tão manifestos perigos como são os de andar arrastado pela corrente do mundo, e como a verdadeira segurança está em procurar ir muito adiante no caminho de Deus. Olhos fixos n’Ele e não haja medo de que se ponha este Sol da Justiça, nem que nos deixe caminhar de noite para nos perdermos, se nós primeiro não O deixamos a Ele.
Não temem andar entre leões – e parece cada um querer levar um pedaço – que são as honras e deleites e coisas semelhantes a que se chama no mundo contentamentos; e aqui parece que o demónio faz temer musaranhos. Mil vezes me espanto e dez mil quereria fartar-me de chorar e dar vozes e dizer a todos a minha grande cegueira e maldade, para que aproveitasse um pouco para eles abrirem os olhos. Abra-nos Aquele que o pode, por Sua bondade, e não permita que se tornem a cegar os meus. Amen. 35,14


Tudo se fez debaixo de grande segredo, porque, a não ser assim, nada se poderia fazer, pois o povo estava contrário, como depois se viu. Orde¬nou o Senhor que adoecesse um cunhado meu, sem cá estar sua mulher e, em tanta necessidade, deram-me licença para o ir tratar. Assim com este motivo, de nada se desconfiou, embora nalgumas pessoas não se deixasse de suspeitar qualquer coisa. Contudo não o acreditavam. Foi coisa de es¬pantar, pois meu cunhado não esteve doente além do tempo necessário para concluir o negócio; e quando foi preciso que tivesse saúde para eu me desocupar e ele deixar desocupada a casa, logo o Senhor lha tornou a dar, do que ele estava maravilhado.
Passei muito trabalho a instar com uns e com outros que se admitisse a fundação; e com o enfermo, e com os oficiais para que se acabasse a casa a toda a pressa, e tivesse ar de convento, pois faltava muito para se acabar. E a minha companheira não estava aqui, pois pareceu-nos que era melhor ausentar-se para mais dissimular. E eu via que tudo dependia da brevidade, e isto por muitos motivos: um, era porque temia que a toda a hora me mandassem voltar. Foram tantas as coisas a dar trabalhos que pensei se seria esta a cruz, conquanto me parecesse que era pouco para a grande cruz que eu tinha entendido do Senhor que havia de passar.
Pois, estando tudo terminado, foi o Senhor servido que, no dia de S. Bartolomeu, tomassem hábito algumas. Pôs-se o Santíssimo Sacramento, e com toda a autoridade e força ficou fundado o nosso mosteiro do nosso gloriosíssimo Pai S. José, no ano de mil quinhentos e sessenta e dois. Estive eu a dar-lhes o hábito e outras duas freiras da nossa mesma casa que acertaram a estar fora do mosteiro da Encarnação. Como nesta, em que se fez o convento, era onde estava meu cunhado, que a tinha comprado, como tenho dito, para melhor dissimular o negócio, eu estava ali com licença. Nem eu fazia coisa sem ser com o parecer de letrados, para não fugir a um só ponto da obediência. Estes, como viam isto ser por muitos motivos muito proveitoso para toda a Ordem, embora eu andasse com segredo e acautelando-me para que não o soubessem meus prelados, diziam-me que o podia fazer. Por muito pouca imperfeição que me disses¬sem que era, mil mosteiros me parece que deixaria, quanto mais um. Isto é certo porque, embora desejasse a fundação para mais me apartar de tudo e guardar minha profissão e chamamento com mais perfeição e clausura, de tal maneira o desejava, no entanto, que se entendesse que era mais serviço do Senhor deixá-lo de todo, tê-lo-ia feito – como o fiz da outra vez – com todo o sossego e paz.
Foi pois para mim como estar em glória, ver colocar o Santíssimo Sacramento e que se remediaram quatro órfãs pobres (porque não se recebiam com dote), e grandes servas de Deus. Logo de princípio foi isto que se pretendeu: que entrassem pessoas que, com seu exemplo, fossem fundamento em que se pudesse efectuar o intento que levávamos de muita perfeição e oração. Via, assim, realizada uma obra que eu tinha entendido que era para serviço do Senhor e honra do hábito de Sua Gloriosa Mãe, que estas eram as minhas ânsias.
E também me deu muito consolo o ter feito o que o Senhor tanto me mandara, e mais outra igreja neste lugar, dedicada a meu Pai, o glorioso S. José, pois que não havia outra. Não que a mim me parecesse que nisto tinha feito alguma coisa, que nunca tal me parecia, nem parece. Sempre entendo que tudo é obra do Senhor; e o que fazia da minha parte, ia com tantas imperfeições, que antes vejo haver de que me culpar e não de que me agradecer. Contudo, era-me grande gozo ver que Sua Majestade se ser¬vira de mim, como instrumento duma tão grande obra sendo eu tão ruim.
Estive assim com tão grande contentamento, que estava como fora de mim, em elevada oração». 36, 1.6.

 

 
[Voltar às notícias]