Homilia da abertura do V Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus

 

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«Orei e foi-me dada a sabedoria, com ela riquezas e tesouros insondáveis; o que possuem esta sabedoria tornaram-se os amigos de Deus» (Sab 7). Bem poderia ser Teresa de Jesus a pronunciar estas palavras do Livro da Sabedoria. Foi esta sabedoria e esta amizade com Deus cultivadas na oração que fizeram desta mulher este grande luzeiro na vida da Igreja que hoje celebramos.

Como gesto inaugural das grandes actividades celebrativas do V Centenário do Nascimento da fundadora da Ordem dos Carmelitas Descalços, começamos por reunir a família mais próxima e intima de Teresa de Jesus, nas irmãs, nos seculares e nos padres, pois antes de tudo, queremos ser nós próprios a confrontarmo-nos com Teresa de Jesus, nossa mãe e mestra do seguimento de Jesus.

Hoje, voltamo-nos para Teresa e perguntamos-lhe: Teresa, que queres e que esperas dos teus filhos e filhas hoje? Que prenda queres que te demos na celebração dos teus 500 anos? Com que filhos e filhas sonhaste? Ainda te orgulhas no céu por teres deixado à Igreja estes teus filhos e filhas? Que é que nos estás a pedir face às necessidades da Igreja e do Mundo de hoje?

Aos teus tempos récios e difíceis tu soubeste dar uma resposta, soubeste dar um contributo determinante de renovação e compromisso; aos nossos tempos, não menos récios que os teus, somos nós que temos que dar uma resposta; mas queremos dá-la ajudados e inspirados por ti. Pois assim nos encorajastes: “Por isso, irmãos e irmãs minhas, demo-nos pressa em servir Sua Majestade (…). Agora começamos, e procurem ir começando sempre, de bem em melhor” (F 29, 32). Queremos começar de novo, contigo Teresa, queremos ser protagonistas da história da Ordem que fundaste, da Igreja e da Humanidade.

Quisestes-nos fortes e corajosos, simples e humildes, livres e determinados, letrados e experimentados nas coisas de Deus, afáveis no trato e com grandes desejos de santidade. Continuamos a precisar de ti, Teresa enamorada de Deus e dos homens, para encarnarmos estes valores e actualizarmos o teu carisma tão fecundo e necessário para os nossos tempos.

E hoje, o que é que nos estás a pedir? Em primeiro lugar, homens e mulheres com uma disponibilidade total e incondicional para o que Deus quiser fazer de nós. Tiveste uma consciência de que não te pertencias a ti mesma, que eras esposa de Cristo, consagrada pelo baptismo e pela profissão religiosa a Deus e à Sua Igreja; e assim nos queres a nós, sempre prontos para responder ao convite do Senhor. Quantas vezes, Teresa, Lhe perguntastes nas tuas vigílias ou no meio das abundantes graças místicas recebidas: «Vossa sou, para Vós nasci, que mandais fazer de mim?»

Durante este Centenário, a melhor forma de celebrarmos o dom da tua vida é repetirmos muitas vezes esta pergunta, própria dos discípulos de Jesus, própria de quem está disponível para tudo: vosso, vossa sou e para vós nasci, que quereis de mim, que queres que eu faça? E se a nossa disponibilidade e docilidade à vontade de Deus for verdadeira e genuína, a resposta não tardará.

Para respondermos acertadamente, precisamos de voltar sempre de novo à fonte da água viva que saciou a sede da Samaritana. Dá-me dessa água, Senhor, para que jamais tenha sede (Jo 4). Ligados à Fonte, quer vivamos nos conventos ou nas famílias, estamos convidados nos nossos tempos a ser homens e mulheres buscadores de Deus, peregrinos com todos os homens de boa vontade, que vão desbravando os mistérios do Castelo Interior onde Deus mora; a sermos, nas expressões teresianas, «amigos fortes de Deus…, com um bom Capitão ao nosso lado, Ele é ajuda e dá força, nunca falta… a sermos daqueles que tratam com Ele todos os dias as coisas mais secretas entre Deus e a alma no interior do nosso Castelo».

Pede-nos grandes coisas mas a começar sempre pelas mais simples e pequenas, que «façamos o pouco que está ao nosso alcance, que vivamos com perfeição os conselhos evangélicos» da pobreza, castidade e obediência, que cultivemos a amizade nas comunidades, dando testemunho para o mundo de que o sonho do amor a Deus e ao próximo, que Jesus pregou, é possível; que nos faça arder e inquietar o coração «aqueles índios», aquelas realidades periféricas que mexeram com o coração de Teresa quando recebeu um franciscano missionário no locutório do seu Carmelo, que lhe falou dos novos mundos que esperavam a luz do Evangelho…

Como podemos chegar a estas realidades periféricas? Começando por nos darmos aos que estão mais próximos de nós, como nos ensina Teresa nas Sétimas Moradas do Castelo Interior: «algumas vezes o demónio dá-nos grandes desejos mas para não servir a Nosso Senhor em coisas possíveis, e fiquemos contentes com ter desejado as impossíveis. (…) Não queirais aproveitar a todo o mundo, mas sim às irmãs que estão em vossa companhia, e assim será maior a obra, porque a elas estais mais obrigadas. Pensais que é de pouco lucro o servir a todas, e uma grande caridade para com elas, e um amor do Senhor, que esse fogo as incendeie a todas, e com as demais virtudes as andeis sempre despertando? Será grande obra e muito agradável ao Senhor» (7M, 4, 14). Teresa quer-nos fazer chegar às realidades periféricas, o que não significa que sejam geograficamente distantes mas são muitas vezes as pessoais e existenciais; quer ensinar-nos, como boa Mãe, a sermos homens e mulheres empenhados na felicidade santa uns dos outros, peritos na relação, no diálogo, na capacidade de perdoar sempre, na aceitação das diferenças do outro e, com essas diferenças, construir comunidades de vida e de amor, comunidades onde se espelhem os ideais do Evangelho; comunidades onde se cultivem as virtudes da humildade, que Teresa definia, como andar em verdade; comunidades onde se cultive o desprendimento que é o caminho para gozar da liberdade dos filhos de Deus, sabendo que tudo passa, que só Deus não muda; comunidades e famílias de homens e mulheres centrados e enamorados de Cristo - da Sua humanidade e divindade - que nos quer a viver a unidade e a comunhão nas nossas comunidades de leigos, irmãs e padres, contagiando-nos uns aos outros com o carisma teresiano que o Espírito vivifica em cada tempo;

«Que quereis, Senhor, de mim?». Que sejamos homens e mulheres que meditam dia e noite na lei do Senhor, que todos os dias entram em contacto com os escritos dos nossos santos, sobretudo com as obras de Teresa de Jesus e João da Cruz, a partir dos quais podemos renovar a nossa identidade de tal forma que falemos de um Deus amor e misericórdia, ternura e proximidade, encarnado e tangível nas nossas palavras e obras.

Penso que Deus nos está a pedir que tenhamos a ousadia dos santos e dos profetas que, como sentinelas vigilantes, descubramos o que o Espírito está a dizer à Igreja e ao mundo, e sejamos os primeiros a acolher essa torrente de novidade, testemunhando e pregando o Deus vivo, o Abba Pai, que nos faz filhos e superabundou no coração de Teresa de Jesus para chegar à Igreja de todos os tempos.

Em particular, aos carmelitas, o Senhor está a pedir que sejamos místicos e poetas, que cantemos com Santa Teresa de Jesus e todos os Santos a formosura e beleza de Deus meditadas e contempladas nas longas horas de escuta, de silêncio e de fecundo trabalho apostólico para a renovação do mundo.

Queridos irmãos e irmãs carmelitas e demais irmãos em Cristo, muitas actividades se realizarão ao longo deste ano jubilar carmelita e teresiano, mas se elas não estiveram cheias da gratidão e do louvor que ardia no coração de Teresa de Jesus e não nos levarem às obras concretas do amor em favor dos que estão ao nosso lado, de pouco valerão e em vão teremos celebrado o seu Centenário.

Entremos, então, conduzidos pela mão de Teresa, insigne mestra da vida espiritual, no segredo do nosso Castelo Interior cheio de beleza e dignidade, entremos na nossa alma que nos diz ela ser “como um castelo todo ele de um diamante ou mui claro cristal (…), um paraíso onde Ele [Deus] disse ter Suas delícias” (1M 1, 1), porque criados à Sua imagem e semelhança e aí, junto do Rei, perguntemos a tão boa Mãe: “Que gostarias de ver diferente em mim e te desse de prenda neste teu Centenário?” A cada um, Teresa, terá algo muito concreto e pessoal a dizer. Escutemo-la e, como ela, demos, sem demora, com toda a radicalidade, a nossa resposta concreta.


P. JoaquimTeixeira, prov. OCD

 

2014-10-15

 
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